Musica para mim é terapia (ou entendendo o Nirvana como uma saída da realidade)

Catarse, sacou?

Pra mim música sempre foi como terapia. Catarse assim.

Não que eu fique lá, destilando escalas, como se isso fosse qualquer coisa que preste. Nunca liguei pra tocar rápido. Um monte de notas para mim sempre foi só isso: um monte de notas.

Não, não eu.

Quando comecei gostava de barulho, de intensidade, daquela parede de ruído e estrondo que só punkrockhardcore dá pra gente. Aquela coisa alucinada, intensa. Rodas e rodas de pogo, litros de suor escorreram para liberar toda a aquela energia. Esse sempre foi o lance do rock para mim: essa despreocupação, esse fuck off que deixa a gente ficar numa mesma nota sem se importar com nada, simplesmente tocar e tocar até ficar acabado.

Esse é o lance que o prog, os metais mais “orquestrais” perderam da beleza do Chuck Berry, do Jerry Lee Lewis: Roll over Beethoven, conhecem? Ficar medindo notas, equalizando tudo bonitinho é a coisa mais anti rock and roll que existe. Um pouco rock sempre está meio errado, sempre respira asfalto, sempre tá afim dum Chicken Race, nunca de discutir os conceitos por trás de um solo de guitarra. Muito menos se ele durar 8 minutos. Cadê a intensidade disso? onde entra a catarse? Nem entrarei em méritos qualitataivos.

The Father


Rock é limitado, toda formula é limitada. Não conheço nenhum estilo/ gênero/ modo que exprima todo tipo de sentimento. Não é assim que essas coisas acontecem. É só olhar o samba, o maracatu, o jazz, a ciranda: elas dizem respeito a universo finitos, como são todos os nossos universos; tem um limite o número de coisas que gente experimenta. Num tem jeito. Somos pregos, mesmo sendo pregos musicais, somos pregos.

Sempre se pode tentar ler, assistir, ver, tocar, provar das coisas mais diferentes, mas ainda sim, num dá para experimentar tudo. Um dos grandes lances é trabalhar essa limitação, esse artesanato de praça que todo estilo traz. Musica de Durepoxi sempre me pareceu mais bacana, mais sincera e mais atraente que musica feita em resina, colocada no molde, estruturada e montada sem rebarbas.

Ser limitado é uma condição que não podemos fugir, somos todos seres humanos e arte é apenas uma das nossas manifestações, portanto é necessariamente limitada. No entanto não precisamos impor barreiras nas nossas mentes mais do que elas já têm: podemos tentar fazer as coisas diferentes, experimentar novos timbre e sabores, tentar ver o que acontece se a gente ao invés de fazer daquele jeitinho, fizer de outro, só por capricho.

O templo

Essa é a maior lição que o punk rock me ensinou: Do ti yourself, right? So do it your way. É sério, prestem atenção: A maioria da primeira geração punk difere muito entre si: de Blondie a Television, de Stooges a Clash, passando por Ramones e Sex Pistols. Nenhum deles tinha adotado uma fórmula estética (toque assim, toque assado, faça desse ou daquele jeito – Todos eles apenas queriam se expressar, e tinham sentimentos parecidos quanto ao mundo, daí suas semelhanças)

Robert Johnson foi por aí também: Pegou as três quatro notas que sabia e esmerilhou no violão. Destruiu tanto que ninguém acreditava que aquilo fosse possível, que dava pra tocar daquele jeito. Na verdade a coisa em si era bem simples, assim uns acordes meio errados, uma liberdade com a fórmula e a capacidade de fazer aquilo soar muito, muito bem. Ele não precisou reinventar a roda, nem dizer que a música dos outros era pobre, ele tocou bem e destruiu. Porque pegou três ou quatro elementos que conhecia e os explorou, deixou sair de dentro dele toda aquela sensibilidade que tornava a tudo até então obsoleto, mesmo que fosse quase ali, mesmo que ainda fosse durepoxi.

Outros mestres foram por aí também. Cartola é de longe um dos maiores poetas, tão avançado que demorou anos a ser reconhecido (que pesem aqui o racismo e o classicismo da indústria brasileira de música, que sempre foi e ainda é estúpida e nojenta) e tudo o que ele fazia era simplesmente contar o que via, da melhor maneira que podia, polindo notas, polindo a voz, até quase não lhe sobrar voz para polir. Não que um dia tivesse grande alcance: Fazia o que podia com praticamente uma oitava só, ou algo assim.

Posso exemplificar eternamente, exemplos não sobram de caras que fizeram muito com muito, muito pouco. Os 4 garotos de Liverpool, o caipira do Bixiga, os homens da Estácio. Exemplos abundam de grandes músicas e músicos que sempre foram capazes de superar suas limitações não enchendo de glacê, ou “eruditando” sua música, mas mergulhando dentro dela e dentro de si, para dali tirar suas mais belas pérolas.

Acho que o gosto mesmo é de sair de alma lavada de um show, de um disco. Quando eu ponho um disco (e pros descoladinhos de plantão que pensaram “ele fala ‘disco'”, bem… não me importa a sua opinião) eu quero sentir toda a atmosfera contida ali. Quando o disco acaba é como acordar de novo.

Quantas das minhas mais profundas convicções de mundo foram alteradas por discos? Quase todas, eu acho.

A liberdade de um Bloco do eu Sozinho, a sinceridade de um Is This It, a urgência de Ramones, a musica flutuante do Futura, a beleza singela do Chega de Saudade, a chapação intensa de Bad Donato. Cada um desses discos, assim como muitos outros, me desafiaram a rever algumas coisas, e jogar fora outras e a adotar coisas novas.

Acho que boa música é pra mim catarse e troca. Expulso tudo de mim, deixo um pouco daquilo de fora, e quando retomo, um pouco, ao menos uma centelha daquela música, volta para dentro de mim com o resto.

Sempre espero que seja assim a cada vez que ouço um disco novo.

Anúncios

3 Respostas para “Musica para mim é terapia (ou entendendo o Nirvana como uma saída da realidade)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s