A jornada do herói pt 1 (ou eu sou Spartacus)

No primeiro semestre de faculdade, eu fui convidado a ver uma aula da minha coordenadora de curso, uma aula de roteiro com o terceiro semestre, a primeira aula de roteiro de verdade do curso. Acho que a idéia era dar uma mostra das coisas mais bacanas que íamos ver. Algo como: agüentem o que for ruim, por que a parte boa compensa e muito.

Nada mais verdadeiro. Vi poucas aulas tão fluentes, tão bem apresentadas, tão boas. Poucas explodiram a minha cabeça dura tão bem, apesar de ter tido alguns grandes professores.

Explica direito esse lance aí fessora!

Na aula a professora explicou a divisão básica da narrativa épica usando o conceito da Jornada do Herói, do Joseph Campbell, a idéia da divisão do roterio do Syd Field e o seu trabalho de doutorado, que juntava tudo isso ao tarô.

Seja mais didáticos então! O que é a jornada do herói? O que Syd Field fala? Como o tarô entra nessa história?

A jornada do herói é do Joseph Campbell, que é um mitólogo e não um roteirista, consiste na reunião de um monte de mitos do mundo todo que tem narrativas similares, criando assim uma espécie de Narrativa Modelo. Ele deu um entrevista muito boa para Bil Moyers que explica praticamente tudo. Aqui.:)

A idéia é que todo herói parte de uma mesma situação, de um problema que lhe limita e depois de uma jornada em busca das respostas, ele volta senhor de si mesmo e da situação. Por exemplo: Spartacus, que vamos analisar mais abaixo.

Syd Field montou um esqueminha que explica mais ou menos como você deve dividir o seu roteiro cinematográfico para que ele funcione. As coincidências são muito grandes com a jornada do herói, mas o próprio Syd Field adora fazer um diagrama para explicar, segue:

Essa é a divisão de um roteiro clássico.

A idéia é dividir o roteiro em três atos: apresentação, confronto, resolução. O que divide os atos são os pontos de virada, grandes acontecimentos que mudam a história como um todo.

O tarô é um monte de cartas com ilustrações e um nome. Tem um monte de divisões, siginificando cada um estágio da jornada da vida. Eles tem uma ordem clássica, não me lembro por que exatamente. Mas ela propunha o seguinte: se o tarô é uma narrativa de toda a vida, ele é também a narração da jornada do herói.

Agora entraremos no nosso mito, na nossa narrativa clássica, nas nossas cartas de tarô:

Spartacus foi, até onde me consta um trácio, escravo, gladiador e revolucionário que viveu, lutou e morreu em Roma do século I antes da era comum.

Só que esses dados assim jogados não nos apresentam um herói, não nos conta nada verdadeiramente. Apenas um apanhado de fatos históricos que muito poco dialogam com a nossa vida.

Mas foi em cima dessa premissa que a Starzz pegou e transformou isso em um seriado fantástico: Spartacus Blood and Sand! Aqui Spartacus é um trácio que negocia o apoio militar de sua tribo à Roma, é traído por um de seus generais, lidera um motim nas tropas auxiliares e parte de volta para a sua vilapara conter a ameaça que Roma havia permitido atacar-lhes.

O meu nome não é Spartacus, mas ninguém se importa

Entenderam? Aqui o herói da seu primeiro passo, faz sua primeira escolha que vai jogá-lo na jornada que vai torná-lo herói. Ainda não aconteceu a primeira reviravolta, o “turning point” porque começamos sabendo disso, essa é a premissa sobre a qual se constrói o personagem, somos apresentados já a um Spartacus capturado e rumando a sua morte. Se inicia mesmo a jornada a partir do momento que ele sobrevive a sua própria execução e se torna um gladiador, aí passamos da apresentação ao desenvolvimento do personagem e da sua história. Agora Spartacus não é mais um soldado, agora ele é um escravo.

Minha professora comparava isso ao arcano do Enforcardo: um homem de ponta cabeça, amarrado pelos pés. alguém indefeso, incapaz de qualquer ação ou reposta, alguém que é levado pela vida sem nenhum possibilidade de escolha.

A grande sacada do seriado é tornar todos ali 3D (não, não quem nem avatar, 3d que nem vida real). Spartacus é um homem inconformado com sua situação, que se recusa a fazer o jogo da sociedade a sua volta. Oenomaus, o Treinador, é alguém que acredita verdadeiramente nos grandes ideais da vida de gladiador. Crixus também acredita, mas é antes de todo um lutador, que se agarra no seu status de campeão para negar sua situação de escravo. Cada um dos personagens servem para te fazer entender qual era a realidade em que Spartacus está inserido.

A história se desenvolve a partir do olhar do Spartacus, nos identificamos com ele. Batiatus se torna aquele patrão FDP que todo mundo já teve, Oenomaus é aquele gerente pentelho que compra todo o discurso do patrão, que parece que é mais patrão que o patrão mesmo, Crixus é aquele assistente puxa saco que atrapalha muito a sua vida, por que não te deixa tentar nada, porque conhece e sabe tudo o que o chefinho gosta. A gente pode extrapolar isso para toda a vida, mas gosto dessa análise de luta de classes.

É com Spartacus que vamos mergulhar no ATO II, percorrer a jornada, descert todos os arcanos até chegarmos a resolução, a redenção, ao fim do baralho.

Acompanhe, esse é um post em algumas partes que publicarei durante todo o mês de maio, enquanto isso pega esse trailer da primeira temporada:

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2 Respostas para “A jornada do herói pt 1 (ou eu sou Spartacus)

  1. Muito didático, apesar do português robertocarlista, e convincente, sinal que tu acreditas nisso. O que já é um bom começo. Interessante é que Campbell, Field e o tarô têm em comum fundamentar suas teses em símbolos, sejam eles heróis, pontos de virada ou figuras. Assim é na vida real também? Ultrapassamos obstáculos, entendemos nossa alma, compreendemos o outro… com ou sem a ajuda de símbolos? Serão símbolos da vida os arquétipos do inconsciente coletivo de Jung? Serão símbolos as datas todas da nossa existência – nascimentos, mortes, noivados, aniversários – as imagens congeladas fisica ou digitalmente de cada passo ou passeio? Os acontecimentos funestos ou felizes, augúrios… ou mensagens… ou coincidências…? Será a vida um roteiro de cinema em que tudo acaba bem… ou nem sempre?

    • Cara, beleza?

      Todos os mitos, histórias eles são maneiras que os povos encontram de reinterpretar e passar a frente o seu conhecimento de mundo. então as histórias acabam sempre refletindo a questão da vida em si, tentando sempre levar mensagens morais, éticas, avisos, enfim, era a forma de passar conhecimento.

      Os símbolos vão se repetir por que apesar da aparente diversidade a vida humana se trata basicamente das mesmas coisas: comer, dormir, se proteger do frio, do sol, da chuva, sarar de feridas, superar doenças e assim por diante. Não diria que são coincidências, apenas que o leque estruturalmente é bem limitado no que pode acontecer. O que importa quase sempre é o como, quase nunca o “o que” acontece.

      E o que diabos é portugês robertocarlista?

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