Na Cidade (#1)

A parede, os muros, a cidade cinza, pálida, suja, grosseiramente ornada de lâmpadas de tungstênio, de mercúrio, de hidrogênio e hélio que a iluminam, que jogam suas sombras para os cantos, que tentam fingir que não há ali nenhum sujeira.

A cidade olha para ele. Mais do que olhar, a cidade me encara e me avalia, de cima a baixo, dos tênis velhos ao boné surrado. Dos jeans um número maior a barba inadequada e torta, cheia de falhas.

Os pés se arrastam, seguindo o mesmo caminho pisado diariamente, o mesma trilha na qual se arrastam milhares como ele diariamente, na qual se arrastam vontades, se arrastam amores, se arrastam famílias, se arrastam os dias.

Por nenhum motivo em particular ele olha para os lados dessa vez, está sobre uma ponte, sobre algum tipo de viaduto (O que diferencia uma ponte de um viaduto ele nunca soube) e vê lá embaixo carruagens e lordes apressados em seus caminhos. Ele vê que todos seguem os mesmos caminhos, a pé, em carros, em onibus ou trens, sempre as mesmas trilhas. Sempre as mesmas estradas, sempre as mesmas vias, as mesmas veias e artérias. Então ele olha para cima.

O céu é azul, as lâmpadas não iluminam o céu, os postes só olham para o chão, as pessoas só olham para o chão (afinal sempre disseram que era importante manter os dois pés firmes no chão), então ele estanca, não sem causar uma pequena comoção, atrapalhar o tráfego das pessoas apressadas e em seus horários, e olha, calmamente o céu azul, e ao poucos quase instantaneamente sua mente vai ficando em branco, os problemas somem, as dívidas somem, as promessas não cumpridas somem, aos poucos suas costas se lembram como é ficar completamente na vertical, sem sentir os anos pesaram ali, sem sentir as vidas que os outros acham que ele deveria ter pesando ali e ele respira fundo.

O ar ainda é viciado, mas ele começa a se lembrar de cheiros, de pequenos cheiros gostosos. A fumaça que sai dos ônibus, o café do bar, o pão no mercado, o queijo recém cortado dois andares acima, algo queimando no cigarro enrolado em palha de milho de seu tio-avô, o cheiro da sua madrasta, a comida da sua esposa, os cheiros dos céus chegam até ele, devagar ele vai levantando as narinas puxando a corda invísivel daquele show de marionetes, aos poucos inflando cada vez mais o espírito.

Os pés já não doem mais, os braços estão largados junto ao copor, o coração toca como uma pequena banda de nyabinghi, a respiração é como a de um trem parado na estação, como um gato dormindo sobre o sofá, como uma criança que não conhece os pecados do mundo, os sons, os cheiros, os gostos da cidade se esvaem de suas sombras e o preenchem. Ele sabe que ainda há sombras, que ainda há escuridão e sujeira, que ainda há dor, que ainda há muita coisa ruim, ele sabe na verdade de cada uma dessas coisas, ruins, mesmo as indiziveis, mesmo as invisiveis, mesmo as que acontecem com as não pessoas que a cidade expulso para suas margens, ele sabe de tudo isso, e sabe que tudo isso começa da mesma maneira que o congestionamento abaico e aos lados dele, que tudpo começa porque todos usam os mesoa caminhos, que todos usam caminhos pré tralados, pré estabelecidos.

Ele dá um passo para o lado, a mochila cai, derrubado por um senhor de terno apressado que não olha para trás, ele não olha, não se importa, não está mais ali, ele trocou de caminho, ele se perdeu para a cidade, para os mapas, para as rotas, para ele mesmo, e espera, um dia, se encontrar.

Um dia a cidade não será a cidade que o encarará, mas ele que encarará a cidade, conhecendo seus segredos e imoralidades, suas virtudes e pecados, um dias não importando quantas lâmpadas acendam, ele vai saber onde estão as sombras. Porque ele não mais as teme, mas também não as abraça, ele simplesmente esolheu outra via, ele escolheu outra via. Ele escolheu a própria via.