A filosofia [pós] moderna do Sly (ou como eu chorei assistindo Rambo)

Antes de qualquer coisa, assistam o vídeo abaixo. Entrega o final, então tem “spoiler”; mas o filme é de 1982 e sem assistir essa cena toda a nossa conversa vai ser absolutamente sem pé nem cabeça.

Assistiu?Não? Volta e assiste. Pronto, agora a gente pode continuar.

Isso se chama síndrome do stress continuado, no meio militar é conhecido como fadiga de combate e sempre a conheci como Síndrome de Rambo. Isso aí acontece com quase todos os combatentes da linha de frente (exclui-se aqui e quem fica aquartelado e a maior parte dos oficiais), notadamente após a guerra do vietnã. Muitos são os motivos que uma guerra apresenta para nos desestabilizar emocionalmente completamente, mas aqui você encontra um artigo bem mais bacana e mais explicativo do que é, de onde vem e como combater. Leia, vale a pena.
Vamos tentar estabelecer uma linha do tempo: Um jovem é convocado àguerra, uma guerra que ele não escolheu nem existir nem combater, mas ainda sim ele foi enviado para lá. Notem que ele fala ao oficial:

“Você me pediu para ir, eu não pedi a você!”

Uma vez assimilado aos quadros regulares ele é treinado para ser um soldado de infantaria (para quem não sabe, infantaria é quem fica no chão com o fuzil e o c* na mão, enfrentando o exército cara a cara), a partir disso é treinado para entrar num unidade de elite, então todos são enviados para dentro da selva vietnamita, lá eles vão morrendo um a um até sobrar apenas o Rambo, aí ele é dispensado (finalmente, não?).

Agora, voltando para casa, voltando para o país que ele serviu, e a gente pode até discordar desse pensamento, mas para um soldado ele serve ao seu país, a alternativa a isso é pensar que se está dano a vida por nada; assim que pisa no chão do aeroporto manifestantes o xingam e cospem nele, como se ele, individualmente fosse o culpado. Essa é uma grande sacada e que vai ajudar a entender o que acaba por acontecer com nosso querido John.

De volta para casa, veterano de guerra, soldado altamente treinado, o que acontece? Ele fica desempregado e deixa de ser bem vindo em qualquer lugar, restando apenas a opção de fazer bicos aqui e ali, e viver quase como um mendigo, aí ele é preso simplesmente por estar passando por uma cidade e o xerife não ir com a cara dele.

Aí a porca torce o rabo. Muito.

Retomar a linha do tempo é importante para entender a lógica desse personagem. Temos muito pouca informação sobre quem ele era antes de ir para o exército, mas dá para imaginar que ele não tenha uma família muito estruturada, não tenha uma profissão além de soldado e nem um local para voltar; porque qualquer uma dessas coisas o colocaria num local, amparado e auxiliado e não vagando por aí. A escolha por pessoas assim para engrossar fileiras também é fundamental: não tendo nada além disso, o exército se torna seu universo e não tendo ninguém esperando-os em casa, não há quem sentirá falta delas.

A grande sacada do filme para mim é a parte mais simples de sua história, na verdade, o seu ponto de partida: um homem que viu seus amigos morrerem, foi criticado, abandonado não consegue emprego nem de lavador de carros e é atormentado por um dos conflitos armados mais desumanos que se conhece, essa é uma história das mais interessantes para contar, e sua beleza reside em seu horror: Por mais que fosse uma merda matar pessoas, por mais que fosse horrível aquilo, lá ele era alguém, tinha um papel e era reconhecido por isso, era um homem, tinha sua dignidade, aqui, longe do front (que nem existe mais), no meio de pessoas que desaprovam não só o que ele fez, mas que ele é, que desaprovam sua própria existência, esse é um homem que não tem mais nada, nem passado (que lhe é negado), nem presente e nenhuma perspectiva de futuro.

Há quem diga quem em A Metamorfose Kafka criou a perfeita metáfora do homem moderno (ou pós moderno, depende da escola de quem faz a crítica): um homem impotente, transformado em algo sobre o qual não tem controle, isolado, rejeitado pelos seus pares, vivendo de restos até definhar para a morte. Beleza, entendo o que querem dizer, entendo de verdade, mas um cara virando inseto está longe de ter o mesmo poder que um guerreira sem guerra para lutar.

Essa cena final destrói tudo o que a gente viu nas telas durante o filme: aquele não é um homem frio, um homem que não se importa com nada, duro feito pedra e mais mal que o picapau, aquele é um homem atormentado por lembranças que ele não pediu para ter, numa guerra que ele não pediu para existir e perderam por motivos que ele não compreende, nada naquele mundo lhe pertence, ele não é senhor nem de suas ações, nunca foi, e está tentando ser (Alô, Joseph Campbell!), quer, no fundo apenas ficar em paz, apenas descançar, quer apenas esquecer e ser esquecido. Mas não consegue, tanto por incapacidade quanto por falta de oportunidade para isso.

John Rambo é a metáfora de crescer do jovem, é a metáfora do bully na sua escola, do seu chefe escroto, de tudo aquilo que não se importa quem você é, nem importa o que você quer, mas que vai te usar, mastigar e cuspir fora, sem se importar nem um pouco com o local onde você vai cair.

PS: Não concordo com a guerra do vietnã, nem nenhuma outra guerra e sei que há elemento de propagando política dentro do filme, mas tanto um elemento quanto o outro são secundários aqui, estamos conversando sobre a dinâmica social do personagem, não das implicações políticas da obra na qual ele está inserido. Claro que não se pode esquecê-las, mas não é foco da análise aqui.

JCVD como confirmação da teoria do nada (ou Como que pode ser tão chato)

O nada é uma impossibilidade física.

O nada não pode ocupar lugar no espaço, ou seria matéria. Não pode ter cor, não pode ter volume. O nada não pode ter movimento, massa, área ou comprimento.

A mera ausência de matéria não é O NADA, é o Vácuo. E nem mesmo o vácuo é muito tolerado: a matéria sempre teima em querer equilibrar as coisas e preenchê-lo.

O nada, por sua própria definição, não existe, e se existisse deixaria de ser nada e seria algo.

Ele pagando de soldado veterano boladão.

E, mesmo assim, existe Jean Claude Van Damme, os filmes do JVCD, os personagens do JVCD e principalmente o JVCD em si e por si só. Mas justiça seja feita: o Grande Dragão Branco é um puta filme, mas nem a história, nem o personagem são do Van Damme, mas pertencem antes à realidade, são algo em si e por si só.

Excetuando-se essa obra, o que mais pode ser dito a favor do sujeito? Timecop é seu maior sucesso. TIMECOP. Seu maior personagem, sua melhor atuação é um soldado-mendigo-atormentadopelaguerra. Alô!? Stallone, mostra para ele como fazer direito isso aí.

Caímos então no paradoxo do início desse texto: JVCD existe, ele está lá registrado em película para toda a posteridade, assim como os desenhos do Liefeld, e no entanto, mesmo assim, aquilo é nada. Não é, de nenhuma maneira, o vácuo: um vazio espacial sensível a ser preenchido, não não, JVCD vai muito além disso, conseguindo a façanha mór de estar na tela mas não ocupá-la, de encarnar grandes personagens e mantê-los absolutamente vazio, de transformar filmes que poderiam ser grandes e históricos em meras fitas de sessão da tarde.

Um verdadeiro soldado veterano boladão!

Jean Claude está além do vácuo, pois não pode ser preenchido por matéria, mas sim capaz de anulá-la.

O Grande Dragão Branco é imutável, irretocavel e incontinuável. Há ali todo o resumo e se o “ator” tivesse vindo ao mundo apenas para encenar aquele papel, teria feito sua contribuição à humanidade, tornado o mundo um lugar melhor e depois partido. Teria alcançado patamares inlcalculáveis para, a partir disso, se tornando um homem muito maior que sua estatura indicaria de incio. Mas não, ele insiste, ainda hoje, ele insiste.

Nenhum filme de Van Damme me emocionou ou se tornou minimamente memorável. A não é claro por ser uma catástrofe que beira a Hecatombe. E por algum motivo que me escapa ele ainda faz filmes, meu deus do céu!

Não há o que acrescentar. Mesmo. A não ser o unico momento memorável que prova a existência irrefutável do NADA