A jornada do herói pt 3 (ou Eu sou Spartacus e terei a minha vingança nessa vida ou na próxima)

E aí pregos, belezera?

Terceiro e ultima parte da nossa jornada sobre a jornada do herói. Então antes vamos a um recapitula?

Começamos falando sobre Joseph Campbell e sua esquematização dos mitos, criando uma fôrma sobre todas as grandes histórias épicas, o Syd Field pegando essa forma e esquematizando isso em um roteiro e minha querida Maritê comparando isso tudo com as cartas de tarô. E por fim peguei o exemplo do seriado Spartacus para me fazer entender melhor.

E onde paramos na história do nosso querido gladiador que liderou a maior revolta de escravos da república romana e dando uma puta dor de cabeça para todo mundo, e criando um mito gigantesco.

Antes de continuar fazer uma pequena definição de mito: O mito é uma história simbólico que serve para dar lastro para algum aspecto cultural relevante para uma sociedade; em geral os ritos, práticas, hábitos de uma sociedade. Ou seja: quando a gente olha um mito a gente olha uma sociedade se auto explicando, se auto justificando e se construindo. Um mito fundador, como Romulo e Remo, serve para fazer os Romanos se entenderem como algo além de uma tribozinho de merda que vivia sendo saqueada pelos etruscos; a Ilíada e a Odisséia servem para os gregos se entenderem como um único povo, derivado de semi deuses e capazes de vencer a civilização mais avançada até então; o mito da fuga do Egito serve tanto para criar a terra prometida quanto para dar lastro divino para as leis básicas, o mito da vida do messias cristão serve para criar uma nova forma de entender as velhas leis judaicas. Cada um desses mitos serve para criar novas práticas, para fundar novas sociedades, para criar uma nova forma cultura para esses povos se organizarem em volta.

Mas Spartacus não é um mito, ele aconteceu! É um fato! Realmente é um fato histórico a existência de um escravo gladiado que foi um dos líderes de uma revolta des escravos. Ele pode ter sido trácio (ou pode só ter sido um gladiador do tipo trácio), ele pode ter sido um soldado (ou um ladrão, um mercenário, ou qualquer merda assim), ele pode ter sido fomentado a revolta (ou apenas entrado nela e acabado liderando), mas é praticamente só isso. Não se sabe como ele fez para juntar os escravos, qual era a ideologia desses escravos, o que ele pretendia, qual era o projeto político (se ele tinha) dessa revolta. Não se sabe como ele era, o que queria, se ele amava, de onde veio nem o que queria. Tudo isso é criado, inventado, mitológico. E o que ele respresenta? vamos a terceira parte.

Agora ele ganhou a luta principal e de quebra virou campeão dos gladiadores, virou o maior do de todos. Ganhou tanto dinheiro e está num situação tal que consegue o que ele mais queria: sua mulher de volta! E agora josé, ele vai lutar pelo que? o que aconteceu quando um herói tem tudo o que ela queria? isso acontece:

Coisas grandes e infelizes

Esse é o meio da jornada. Não tem volta daqui, ele abandona as esperanças vãs de voltar a onde estava e ser quem era. Tudo mudou, e ele mudou junto. Não é possível mais voltar a uma casa pequena com uma varanda, fingir que nada aconteceu e tocar em frente. Sura está morta, e o homem que Spartacus era morreu junto com ela. Agora ele tem duas opções: Ou abandona a vida, ou abraça o que está passando e tenta sair vivo do outro lado. Ele, obviamente, escolhe a segunda.

E assim se torna o que todos sempre quiseram que ele fosse (e o que seu dono orquestrou para que se tornasse): uma máquina assassina, um destruidor de homems, um deus das areias. Ele abandona sua vida de trácio e se torna Spartacus, o que trouxe a chuva.

A partir disso temos poucos fatos de grande nota, a não ser, é claro, pelo segundo ponto de virada, aquele que vai encaminhar a série para seu fim, que vai transformar o mero gladiador em heróir, que vai increver o nome de Spartacus na história.

Nem sempre se tem opções


Antes é necessário voltar ao começo e estabelecer os seguinte: todo mundo tem um sidekick, um coadjuvante, um ajudante na sua jornada. O de Spartacus é Varro. E eles não poderiam ser mais diferentes. Varro é romano, gladiador por opção (kind of), sua mulher vive ali perto e bem, tem filhos, nunca foi soldado e é bem humorado. Ele serve como uma ponte para Spartacus (e para o espectardor) entender os costumes, as festas, os hábitos romanos. é ele quem explica que Spartacus pode ganhar dinheiro sendo escravo, para que servem as festas, as lutas e cada um dos pequenos hábitos que a gente mesmo não entenderia. Então, lá pelas tantas, graças ao melhor sub plot do enredo, Spartacus mata Varro em uma luta. Era para ser uma demonstração, mas eles são escravos, sua vontade não lhes pertence, e assim começa o ponto de virada que vai desencadear o fim.

Agora Spartacus não pode mais abraçar essa vida, pois acabaram de lhe tirar sua ultima felicidade (a amizade é poderosa e incrível para quem tem a sorte de ter grandes amigos) e como uma bomba, ele está de volta a realidade: Não é campeão, não é senhor de nada, nem da sua vida, nem pode garantir nada, mesmo com todo prestígio que tem, ainda é escravo. Mesmo sendo o campeão das arenas, ele se lembra que só está nas arenas porque perdeu tudo o que mais amava, perdeu tudo o que passou a amar, perdeu tudo o que poderia vir a amar, pois aquele vida nunca mais se tornará suportável.

A partir disso nosso herói vai olhar com outros olhos o seus arredores, vai desabraçar a vida que leva e vai descobrir quem tramou a morte da sua esposa, quem é o único culpado por tudo que lhe aconteceu, e não pode ser outro a não ser aquele que tem o direito de vida e morte sobre ele. No entanto, e aqui os roteiristas são fantásticos, não é apenas nele que cresce a insatisfação. Cada um dos gladiadores vai se lembrando ao longo da temporada o que é ser um homem, e de cada um deles é retirada a humanidade, é retirado o pouco que têm, pois suas vidas não mais lhes pertencem, e eles as querem de volta. Como tudo o que têm direito junto.

Qual é a virada final então? Qual é a conclusão que muda tudo? Simples caro amigo: ele percebe por fim que nada vai mudar nunca enquanto não mudarem as condições materiais objetivas. Há sobre ele alguém como poder de vida e morte, alguém que mesmo sem pequeno, mesquinho, comum, na verdade quase um ninguém, sempre será mais do que ele, pois detém algum poder, pois detém poder sobre ele mesmo. Para mudar de vida é necessário que não haja mais um Dominus.

No entanto você conhece algum senhor que abrirá mão por espontânea vontade de todos os seus privilégios? Conhece algum dominador que devolverá tudo o que tomou do dominado por algum acesso de boa vontade? Conhece alguma civilização que simplesmente devolveu suas colônias a seus donos de direito? Alguma classe que cessou sua exploração de outra classe que por que percebeu que explorar pessoas é algo errado? Não, amigo prego, você nunca ouviu falar porque nunca aconteceu. Nem acontecerá.

As pessoas não abrem mão do poder, ainda mais o poder ilimitado. É necessário destruir esse poder, é necessário romper o contrato social que está estabelecido para que se possa transformar o paradigma. Uma nova ordem só irrompe do caos. E esse é, para mim, o grande mito fundador de Spartacus. A luta de classes, a revolução sangrenta, a necessidade de se levar a justiça algo que a justiça estabelecida ainda nem reconhece coo crime. Agora que Spartacus e os outros gladiadores não querem permanecer como gladiadores, eles possuem uma e apenas uma saída: A destruição da casa de Batiatus e assim a destruição dos seus próprios grilhões.

Mas o primeiro grilhão a ser rompido é o que está dentro de sua cabeça, é o grilhão que nós nos auto impomos. Para mim é nesse ponto que Spartacus é mais brilhante e vai além do simples história de brucutu. Em vez Sparatacus sozinho enfrentar tudo e todos e os outros apenas seguirem a oportunidade, não, ele sabe que é necessária a ação em conjunto, que é necessário que outras lideranças se juntem a ele, pois ele entende que não está lutando contra um homem (Batiatus, seu dono) mas contra um sistema, contra uma classe opressora, contra uma casta detendora dos direitos de vida e morte sobre outros. Vidas por dinheiro, o modo Romano de viver.

Então Spartacus tenta reunir os gladiadores todos em volta de sua causa, a causa deles mesmos: A liberdade, a sua humanidade, a sua luta de classes. E só há uma escapatória para que completem sua jornada, para desçam o ultimo arcano do tarô, para que tenham controle sobre suas próprias existências, é necessário retirar a mão que embaralhas as cartas e a distribui marcadas, cada um deles tem que abandonar o enforcado, entender que são tolos para que possam se tornar magos, o arcano que tem a mesa posta, os elementos todos à sua frente e pode escolher que caminho seguir. E só há um caminhoa seguir.

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A jornada do herói pt 2 (ou Luke, eu sou Spartacus)

Primeiro peço desculpas pela demoa nas atualizações. As coisas foram se atropelando a acabei tendo que deixar o blog de lado. Tem o tumblr para culpar também, mas não vamos ficar apontando dedos, ok? Vamos só seguir em frente, vamos mergulhar na nossa jornada.

Apesar de ter passado quase um mês desde que escrevi o ultimo post, ainda tenho tudo muito fresco na cabeça (até porque já assisti a Spartacus umas 20 vezes) e sei como continuar, mas quem se esqueceu da uma olhadinha no post abaixo, é rapidinho, depois volte e continuaremos,

E onde paramos? Qual é o primeiro passo na jornada do herói? O que é necessário fazer para que se dê o primeiro ponto da virada e que arcano vem agora?

Paramos aqui, se bem me lembro:

Agora vem o tolo amigos. Aquele que acha que sabe, mas não sabe nada. Agora Spartacus começa a sua jornada, e ela será cheia de coisas grandes e infelizes. Qual o primeiro inimigo do tolo? Qual o grande inimigo da jornada? Ficar parado. Não caminhar, não sair do lugar. Esse é o maior de todos os perigos.
Spartacus começa a sua jornada não querendo caminhar, não vendo motivos para isso, na verdade. Ele perdeu sua aldeia, perdeu sua liberdade, perdeu seu orgulho e mais importante do que tudo isso: perdeu Sura.

Sura é sua mulher. Sura é seu amor. Cara, é um lance tão grande que ele tem os peito de mandar Roma a merda, capotar um general romano e voltar para casa, para sua Sura. É interessante ver que ele não quer a liberdade, não quer vingança, ao menos a princípio, ele quer apenas o bem estar de sua esposa, ele quer apenas o bem estar de seu amor. E não dará um passo em nenhuma outra direção. Ele se recusa a inciar sua jornada, até saber que no fim dela Sura estará lá.

Vamos fazer um acordo? Você me dá dinheiro lutando, eu te dou sua mulher.

MAS uma jornada não sobre chegar, nem sobre partir, uma jornada é sobre o caminhar. Todo motociclista sabe disso. Mas Spartacus não vê a jornada, ele só vê a linha de largada, isso o torna apressado, imprudente e destrói tudo quando ele perde na arena. Sim, terceiro episódio e o nosso herói tá fudido e mal pago, sem dinheiro, sem mulher, sem liberdade, sem nem a vida de gladiador mais. Tolo. É necessário aprender, é necessário se aceitar a jornada para poder cumprí-la. Nas palavras de Quintus Batiatus:

Um homem deve aceitar seu destino, ou ser destruído por ele

Syd Field vai nos lembrar o tempo todo que apesar de um grande roteiro só ter necessariamente 2 grandes pontos de virada, é necessário prepará-lo, é necessário manter o espectador interessado, é necessário manter as reviravoltas acontencendo. E os roteiristas aprederam isso muito bem. Partimos, em 4 episódios, de um guerreiro orgulhoso, quase um general de seu povo, para um escravo semi enlouquecido, penitente, quase desistindo da vida em si. Essa é a primeira transformação pela qual Spartacuts vai passar. Ele ainda é um tolo, ainda não compreendeu o jogo, ainda não aceita jogar, mas as peças se moveram, ele caiu até as lutas ilegais e sanguinárias dos subterrâneos da República (adoro o fato de Roma ainda se chamar república mas ser, de fato, um império).

Uma outra professora minha uma vez explicou que a estrutura de um seriado se parece muito mais com varal do que com uma linha, como são os filmes. Cada episódio seria uma linha completa na vertical, e a temporada ou o seriado em si, uma outra linha horizontal sobre a qual estariam pendurados a linha dramática de cada episódio. Dessa forma cada episódio o herói atravessa sua própria jornada, podendo voltar ao ponto de origem ou seguir em frente, dando mais um passo dentro da grande caminhada. Fez sentido? Esepero que sim.

A um ponto de virada que vem pela sorte, praticamente, quando nosso heróis se encontra em maus lençóies e quase desistente, de tudo. Volta a ser um gladiado, abandona as lutas ilegais e de cara é escolhido para a fazer a luta principal. É mais ou menos como sair da terceira divisão para disputar o mundial, de cara.

E o que acontece? Bem, isso aqui acontece:

Agora ele é campeão da porra toda, tá por cima da carne seca, vai poder recuperar a sua Sura, talvez comprar sua liberdade, certo?

Hmmmm, errado. Agora ele chegou ao meio de sua jornada, e como toda boa história épica, essa aqui também é uma trilogia. Até a parte 3.